Por volta da década de 1970, já existia a cidade de Vilhena, mas a região que hoje é denominada Cone Sul, constituída de Colorado do Oeste, Cerejeiras, Cabixi, Corumbiara e Chupinguaia era ocupada por uma densa, rica, e majestosa floresta, as vezes entremeada por faixas de campos ou cerrados, não existiam cidades nestes locais.
Hoje às vezes mencionado injustamente como um projeto de ocupação capitalista, o projeto de colonização de Rondônia sem dúvida é o maior sucesso de intervenção fundiária publica do Brasil, pois conseguiu promover a ocupação produtiva de uma imensa área, conceder terra e trabalho para centenas de milhares de pessoas e permitir o surgimento de um Estado promissor e progressista.
Na realidade, a ocupação de Rondônia, não decorreu somente de uma vontade de distribuir terras, mas visava principalmente solucionar ao menos um pouco a enorme pressão social que estava existindo nos estados do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, com a brusca queda nas lavouras cafeeiras, as extinções das colônias rurais, que fez surgir uma multidão dos denominados “boias frias”, que trabalhavam na diária, quando surgiam serviços e eram levados em caminhões para as cidades todo entardecer.
Assim inicialmente o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) realizou venda de áreas maiores através de licitações, promovidas em 1972 e 1974, quando empresários e produtores de todo o pais, se habilitaram para adquirir áreas todas na mata, sem estradas, sendo que boa parcela dos municípios de Corumbiara e Chupinguaia foram loteadas desta forma, e muito tempo depois, áreas remanescentes foram alvos de projetos de colonização também.
No ano de 1973 foi criado o Projeto Paulo de Assis Ribeiro, PIC PAR, sendo que o Incra escolheu como sendo o local base e sede das ações do projeto de colonização, o 21 que era assim batizado pois ficava exatamente a 21 quilômetros do Rio Colorado. O projeto iniciava no Rio Colorado e ia ate o Rio Escondido.
As linhas eram desenhadas sentido leste oeste e os lotes eras dispostos a cada 500 metros na frente para as linhas com laterais de 2000 mil metros. Entre uma linha e outra existia uma distância de 4000 metros, daí porque um lote fazia fundiária com o outro da linha seguinte. Cada projeto tinha uma base poligonal eletrônica de aproximadamente 20 quilômetros por 20 quilômetros.
Os marcos de concreto eram cravados a cada 500 metros e delimitavam as frentes dos lotes. Haviam empresas contratadas para realização destas tarefas, como abrirem as picadas, que deveriam obedecer a largura mínima. O pessoal técnico do Incra posteriormente fazia a fiscalização dos trabalhos executados, antes de promover o assentamento das famílias que chegavam de todas as direções do país, na busca de oportunidades, trabalho e também carregando muitos sonhos.
Um dos personagens desta saga, foi Carlos Roberto de Faria, na época coordenador dos trabalhos de campo da empresa Expansão, que tinha como sócios Carlos Eduardo Polo Santos, veterinário e seu irmão Maércio Domingos Polo Sartor, engenheiro agrônomo, jovens e também dispostos a enfrentar o desafio da ocupação da nova fronteira. Carlos Roberto de Faria conta que quando veio até o 21 pois ainda não existia Colorado do Oeste, a bordo de uma rural Willys ,ao cruzar o Rio Colorado, como ainda não havia ponte, o tanque do combustível bateu na barranca do rio e furou, e como identificaram o problema fizeram um conserto com “durepox“, para poderem chegar ao 21 somente na boca da noite.
O 21 era uma grande derrubada de mais ou menos um quilômetro quadrado, onde já estavam no ano de 1976 acampadas quase 2000 famílias em lonas pretas, na maior precariedade, não havia água encanada, o esgoto era a céu aberto, não havia ruas, apenas trilhas. Havia tão somente um conjunto de casas de madeira que eram ocupadas pelos funcionários, uma maior que era onde funcionava o escritório do Incra. A Expansão, ganhara a licitação para demarcar os lotes do PIC PAR e alugou um barracão recém construído, onde se guardava arroz, para poder começar a fazer seus trabalhos. A região era toda ocupada pela mata, muito rica em madeira, e as derrubadas estavam sendo feitas para permitir que as famílias fossem alojadas em cada um dos lotes que lhes era destinado.
Carlos Roberto Faria conta que na região onde fica hoje Cerejeiras, e que foi objeto de um posterior parcelamento de solo, somente foi uma vez, de helicóptero do Incra, pois não existia estrada, e desceram em uma pista dos Arantes, onde vivia uma pessoa conhecida como Pernambuco, somente havia uma casa no local, onde morava este Pernambuco, nada mais. A expansão tinha umas dez equipes, cada uma com cozinheiro, dois foiceiros, um topógrafo, dois balizeiros, a equipe colocava primeiro os marcos de madeira, que eram carregados por uma tropa de burros, posteriormente seriam substituídos por marcos de concreto.
As famílias eram distribuídas nos lotes que lhe eram indicados, e iniciavam a abertura, fazendo clareiras na floresta, para construírem suas casinhas e poderem plantar alguma coisa para subsistência.
João Lucindo, que acompanhou aquele inicio, hoje não mora mais na região, mas lembra que as famílias continuavam chegando, o movimento de Colorado era enorme, alguns já chegavam com o intuito de montar um comércio, serrarias foram se instalando, logo depois a energia de motor chegou, mas funcionava poucas horas, quase todo mundo sonhava em ter um motor em sua casa ou comércio.
Pouco tempo depois começou o parcelamento das terras onde ficariam os vilarejos de Cerejeiras, Corumbiara, Cabixi, que não existiam até então, e que depois foram elevados a distritos de Colorado do Oeste.
Outro pioneiro, o conhecido veterinário Ênio Milani, conta que chegou em cerejeiras em janeiro de 1984 quando havia sido emancipado de Colorado, e que na época só havia um agrupamento de comercio perto do prédio da prefeitura e da Teleron, onde as pessoas iam para fazer contatos com os parentes de fora. Havia um canteiro formado em capim colonião onde hoje é uma das avenidas, muitos profissionais estavam chegando, principalmente professores, muita gente nas glebas plantando café e arroz.
Ele também narra que naquele ano, conseguiu duas quadras perto de onde hoje funciona o hospital e teve que derrubar a mata com trator de esteira. A energia acabava as 22 horas, não havia estrutura urbana. Para chegar ao lote que havia conseguido na 5ª eixo teve que ir um bom trecho de moto e o restante caminhando, pois não havia nem mesmo trilha.
Nilson Fernandes, conhecido como Nilsão da Cerâmica, foi um dos pioneiros que chegou em Cerejeira em abril de 1979, e morou na Linha 2 terceira para quarta eixo, e se recorda que não havia nada em Cerejeiras, uma clareira no meio da mata, com um pouco capim, e uma pequena rua onde estava aberta a farmácia Colorado que era do Senhor Pedro e Getulina e um pequeno mercado chamado Santa Maria, o Bar Central onde as pessoas se reuniam para conversar.
Nilson conta ainda que havia a Madeireira Zannata e tempos depois começaram a chegar muitas outras e também gente que estavam ocupando os lotes que o Incra ainda estava distribuindo. Nilson lembra ainda de outras famílias pioneiras daquela época como as família Baldin, Secanho e Longo, e que tudo tinha que ser resolvido em Colorado do Oeste.

São passados hoje 50 anos desde que toda esta epopeia foi iniciada, de muita aventura, sonho, desafios, ambição, e andando pela região na atualidade, é inegável que todo aquele esforço, sacrifício, dedicação, valeu a pena, pois o resultado é assombroso, muitas vidas foram sacrificadas, como ocorre invariavelmente em todo projeto ambicioso do ser humano, mas muitas vidas, muitas famílias, tiveram com certeza seus destinos mudados, por terem tido a coragem de virem ocupar este precioso pedaço do Brasil.
Cerejeiras hoje:
