Por Mário Mendes

Vivemos uma nova revolução industrial, conhecida como Revolução Industrial 4.0, em que a inteligência artificial está cada vez mais presente em nossas vidas, tornando mais ágil a execução de diversas tarefas e acelerando o acesso às respostas.

No entanto, tais facilidades virtuais têm gerado perdas significativas para a sociedade, entre elas o distanciamento social, a perda do contato físico e o enfraquecimento da comunicação direta, invertendo valores entre o que é a vida real e o que é a vida virtual.

Outra perda relevante está no imediatismo, que muitas vezes prioriza o resultado em detrimento do conhecimento. Obtém-se apenas uma resposta superficial, sem compreender a essência das coisas. É como saber que o tomate é uma fruta, mas não ter a consciência de que ele não deve ser colocado em uma salada de frutas.
Esse fenômeno não afeta apenas as relações humanas e a profundidade do aprendizado, mas também a relação com o Estado, que deveria estar mais presente junto à sociedade.

O que vemos hoje é um Estado que se distancia, regionalizando serviços, reduzindo equipes operacionais e substituindo atendimentos presenciais por atendimentos remotos, em nome da redução de custos. Mas até que ponto isso traz resultados efetivos? Até que ponto um delegado ou juiz que atende de forma regionalizada e remota, distante da comunidade, realmente conhece a realidade local? Ou conhece apenas dados virtuais?

É preciso fazer outra reflexão, qual a diferença entre o cidadão que mora em uma cidade ou região com atendimento presencial e aquele que vive onde só há atendimento virtual? Por que devem ser tratados de forma diferente, se no momento de recolher tributos e taxas todo o valor é lançado no mesmo pote, sem qualquer distinção? Justiça e segurança são direitos inalienáveis da cidadania, não favores concedidos pelo Estado conforme sua conveniência.

O argumento de que “faltam recursos” para nomear novos delegados ou juízes chega a ser um insulto à inteligência coletiva, quando se constata a fortuna gasta em eventos supérfluos, estruturas inúteis e projetos que servem mais para promover nomes do que para atender necessidades reais. Não é falta de dinheiro é falta de prioridade, de gestão e acima de tudo, de respeito.

Cerejeiras, assim como outros municípios do nosso Estado, vive esse cenário: sem juiz titular e sem delegado titular, com atendimentos realizados de forma virtual. Ainda que esses profissionais sejam competentes, a ausência física os impede de conhecer a realidade da comunidade, seus costumes, sua cultura e suas peculiaridades.

Esse afastamento transmite à população e, pior ainda, aos que agem à margem da lei a sensação de abandono por parte do Estado, deixando a sociedade à mercê e sem segurança.

É preciso refletir até que ponto balcões e salas virtuais realmente atendem às necessidades de uma sociedade que vive uma vida real, que não se encontra no mundo virtual.

Porque o dia em que o Estado e os Tribunais acreditar que consegue governar e fazer justiça apenas com dados, ignorando o olhar, o chão e a presença, será o dia em que deixará de conhecer o povo para administrar apenas números. E números, por mais que revelem estatísticas, jamais revelarão a alma da sociedade.



Sobre o autor:
Mário Mendes Gonçalves é advogado, atuante na área trabalhista e empresarial, membro atuante na sociedade Cerejeirense.

Mário Mendes Gonçalves é advogado atuante em Cerejeiras.

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