Por Mário Mendes Gonçalves da Silva
“Devemos conhecer o passado para entender o presente e construir o futuro.” Essa máxima, tão repetida quanto ignorada, nos alerta para um risco recorrente da humanidade: repetir, sob novas formas, os mesmos erros do passado.
A Revolução Francesa, marco decisivo na história da civilização ocidental, nasceu sob a promessa de liberdade, igualdade e fraternidade. Os revolucionários de 1789 clamavam pelo fim dos privilégios da nobreza e do clero, por uma nova ordem baseada na soberania popular. O antigo regime ruía diante do grito por justiça.
No entanto, a história nos revela que os caminhos da utopia podem rapidamente se desviar para os trilhos do autoritarismo. Poucos anos após o início da Revolução, a guilhotina, símbolo da nova justiça popular, tornou-se instrumento de medo, controle e silêncio. O chamado Período do Terror (1793–1794), liderado por Robespierre, assistiu à execução de milhares de pessoas, incluindo antigos aliados da própria Revolução, como Georges Danton. Jean-Paul Marat, embora morto antes desse período, foi símbolo do radicalismo revolucionário. Robespierre, por fim, foi guilhotinado pelos próprios revolucionários.
A ironia histórica é evidente: os libertadores de ontem transformaram-se nos tiranos de hoje. Em nome da justiça, ceifou-se a liberdade. Em nome da razão, calaram-se vozes divergentes.
E o que isso nos ensina hoje?
Seja no Brasil ou em outras democracias ocidentais, cresce a preocupação com a erosão das liberdades civis, o avanço de mecanismos de controle narrativo, e a intimidação de críticas sob o pretexto da ordem institucional. A guilhotina, claro, não está mais nas praças públicas, mas sua lógica permanece viva nos processos seletivos, na censura velada, nas decisões que se afastam dos princípios constitucionais em nome de “proteções maiores”.
Quando críticas ao Poder Executivo são rotuladas como ataques à democracia, ou quando questionamentos a decisões judiciais são confundidos com discursos de ódio, há algo de profundamente equivocado. A democracia não exige unanimidade; ela exige pluralidade, tolerância e equilíbrio de poderes. E o papel das instituições, especialmente da Suprema Corte, deve ser o de guardiã da Constituição, não o de censor das opiniões divergentes.
A Revolução Francesa nos legou muitos avanços, inclusive os ideais de cidadania moderna. Mas também nos deixou uma advertência: quando a Justiça se deixa instrumentalizar pela ideologia ou pelo medo, a liberdade perde a cabeça.
A história não se repete literalmente, mas rima. Resta saber se estamos ouvindo os ecos do passado ou apenas assistindo, passivamente, à repetição dos mesmos erros em novos palcos.

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